Ozerina - A Marina Silva que não saiu do seringal


A Marina Silva que não saiu do seringal, chama-se Ozerina*.

Como a Marina Silva que foi estudar na universidade, foi senadora da República, Ministra do Meio Ambiente e candidata à Presidência da República, Ozerina também é uma mulher batalhadora.

Mas não estudou, possui doze filhos, e continua morando em uma casa de paxiúba, no Projeto de Assentamento Tarauacá, localizado entre a sede dos municipios de Feijó e Tarauacá, no Estado do Acre.

Foi aposentada por invalidez, mas a aposentadoria foi suspensa por junta médica; está cadastrada como beneficiária do bolsa família mas ainda não recebeu seu cartão de beneficiária.

Sua alimentação diária depende da sorte de seus filhos mais velhos ou seu marido, em encontrar caça ou pesca. Diz que tem dias, que a caça é boa, mas as vezes passam por períodos de grande escassez.


Diz que agora tem escola no assentamento. De primeira a quinta série. Mas o professor quase não aparece. As crianças vão para a aula, mas quase nunca há aulas. Tem vez que ficam quinze dias sem aula. Os mais velhos vão estudar na escola 15 de julho. Saem as nove horas da manhã e retornam as oito horas da noite.

O seringal  onde vivia foi transformado no projeto de assentamento Tarauacá. Mas já não é mais o mesmo. O primeiro ramal foi aberto próximo onde reside Ozerina, e era conhecido como Ramal do Incra. Mas há vários anos já não recebe a mesma manutenção, estando quase que intransitável, pois no assentamento onde hoje reside foi aberto outro ramal (ramal do Cachoeira).

Quando os primeiros assentados chegaram, a maioria, nas invasões de terras, faziam roças de macaxeira e milho. Mas a maioria destes primeiros assentados também já não residem mais no projeto de assentamento.

Venderam suas terras para outras famílias. Alguns, foram embora para não se sabe onde, mas a maioria, está mesmo é morando na cidade, em Tarauacá ou Feijó. Muitos agora trabalham como empregos temporários para as novas famílias de moradores do assentamento.

Ainda se fazem roças, mas são poucas. Ozerina diz que se plantar arroz ou milho, não é preciso nem sair do assentamento para vender - "vende-se tudo aqui mesmo". Mas a maioria agora está cuidando do seu gado.

Algumas famílias, possuem de 6 a 10 cabeças de gado, mas tem outras, com muito mais. Em todo assentamento, por onde se anda, só se vê pastagens.

Ozerina reclama das condições de comercialização: Diz que há algum tempo atrás, plantou-se muito mamão por aqui. Até hoje se encontram os plantios. Mas quando se ia entregar o mamão em Tarauacá, não se pagava nem o transporte. Todo mundo tinha mamão para vender e o mercado já estava muito cheio. Hoje, ninguém mais quer saber de plantar, porque não possui ajuda do governo.

Ozerina diz que nunca recebeu assistência técnica. Mas outras pessoas dizem que as vezes aparece um técnico por aqui.

O IMAC também já esteve no assentamento, há cinco anos atrás. Estavam fazendo o levantamento das áreas, marcando as áreas alteradas nas propriedades. Depois disto, o pessoal não apareceu por um bom tempo, até que apareceram distribuindo multas, de valores de trinta a quarenta mil reais. Vale mais que a propriedade toda. Ozerina diz que ninguém por aqui vai pagar. Se tiverem que pagar, vão embora. Vão abandonar tudo, porque ninguém tem este dinheiro.

De tempos em tempos aparece algúem do governo dizendo que vão distribuir mudas de bananeiras. Ozerina diz que banana daqui é muito boa, e se as mudas forem iguais, até vai dar para plantar. Mas ninguém vai comprar a produção. O mercado de Tarauacá já está cheio de banana.


Paulo Wadt

* Ozerina é um retrato síntese de uma mãe de familia de moradores do Projeto de Assentamento Tarauacá.  Representa a realidade dos produtores rurais do referido assentamento, bem como a forma como o Governo do Estado do Acre tratou a questão agrária nos últimos anos.
Os nomes dos lugares são todos reais.


Comentários

  1. Para muitos ambientalistas e fiscais do governo, essas pessoas são vistas como destruidores da natureza. Na verdade, o que está sendo destruída é a natureza humana, obrigando as "Ozerinas" a viverem como animais.

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