A relação pesquisa e extensão na Amazônia

Uma das obras literárias que ainda repercutem no imaginário científico sobre a questão amazônica é a intitulada "A Selva Amazônica: do Inferno Verde ao Deserto Vermelho", de 1975 e autoria de Robert Gooland e Howard Irwin. A referida obra aponta a floresta amazônica como uma "selva impenetrável", cuja ocupação humana poderia resultar em um "imenso deserto escaldante", à semelhança do Saara.

Ainda hoje, a Amazônia é apontada como uma das principais bandeiras na “batalha” a favor da defesa e preservação do ambiente, como se fosse o "pulmão do planeta terra" ameaçado pelo desmatamento resultante da exploração madeireira, da expansão da fronteira agrícola e da pecuária. Ao mesmo tempo, sendo considerada a maior floresta tropical do planeta e a principal fonte de biodiversidade mundial, representa uma oportunidade para o crescimento sócio econômico da região e do Brasil.

Acrescente-se ainda a uma visão paradoxal sobre a Amazônia, tida como “um grandioso anfiteatro de terras baixas, encerrado entre o arco interior das terras subandinas e o Planalto das Guianas e o Planalto Brasileiro" (Aziz Nacib Ab'Sáber) e ao mesmo tempo, uma região heterogênea cuja biodiversidade apresenta variações de magnitude incompreensível, cuja justificativa fundamenta-se em teorias baseada em refúgios ecológicos durante a última glaciação, na estabilidade ecológica prolongada, ou ainda na atividade dos meandros dos numerosos rios que sustentam o ecossistema em constante mutação por sucessão ecológica.

Todas estas visões, exógenas, procuram imputar à região uma solução única, quer seja a favor da preservação ou da intocabilidade do bioma, quer seja a favor de uma ação desenvolvimentista transformadora.

O primeiro paradigma que se deve quebrar trata da dissociação homem floresta, como se a presença humana na Amazônia fosse um fator de destruição ambiental, enquanto os indícios arqueológicos apontam para a existência de populações humanas muito antes de colonização portuguesa, como se verifica pelos sítios de terra preta de índio no Amazonas ou os geoglifos no Acre, possivelmente, ajudando a moldar a própria heterogeneidade que hoje se verifica.

Outra questão sobre a presença humana decorre da grande variabilidade de modelos sociais e culturais nas populações residentes na região, coexistindo grandes cidades industriais (Manaus, Belém) e comunidades isoladas em áreas remotas, como a comunidade de Formigueiro (Figura 1), na Serra do Divisor, no extremo oeste do Estado do Acre e a poucos quilômetros da divisa com o Peru. Entretanto, qualquer que seja a característica desta população, esta se espalha por todo o território.

No tocante a exploração da terra, não se pode ignorar que ainda persiste na região, a exemplo do Estado do Acre ou sul do Amazonas, a agricultura tradicional em sistema de coivara. Esta prática decorre da ausência de recursos econômicos para implementação de alternativas de manejo mais conservacionistas e de reposição dos nutrientes exportados pelas colheitas.

Há casos em que a adoção de tecnologias eficazes e de baixo custo chega a ser rejeitada pelos produtores rurais, como se observa em regiões do Estado do Acre, onde programas públicos de desenvolvimento rural introduziram pacotes agrícolas dissociados de um acompanhamento técnico adequado, propiciando descrédito de eficientes técnicas de manejo e conservação de solos em áreas de agricultura familiar.

Um exemplo foi à introdução da adubação verde pela distribuição de toneladas de sementes de Mucuna (Mucuna aterrima) aos produtores rurais familiares pelos órgãos de extensão rural, sem capacitá-los para o manejo da leguminosa, que quando ignorado, resulta em prejuízos as lavouras pela agressividade e elevada capacidade de propagação.

Também no aspecto econômico, são evidentes as diferenças entre as regiões amazônicas, algumas, até mesmo muito próximas. Por exemplo, enquanto no interior do Estado de Rondônia há uma proliferação de cidades, agroindústrias e intensa rede rodoviária, comparado ao que era o interior do Estado de São Paulo há quatro ou cinco décadas, outros estados apresentam uma economia estagnada, dependente ainda da pecuária extensiva e do extrativismo florestal.

Mas mesmo em Rondônia, coexistem cenários extremos. Um viajante ao percorrer um trecho entre Vilhena e Marco Rondon, no extremo sul do Estado de Rondônia, possivelmente daria razão a transformação do inferno verde em um deserto vermelho: associada a uma baixa densidade urbana e populacional, o desmatamento realizado para a implantação de pastagens sobre solos arenosos e pobres quimicamente, que tanto não possibilitou a formação das pastagens, como comprometeu o ecossistema, resultando em áreas degradadas, com esparsas espécies pioneiras em um cenário de solo descoberto e de áreas abandonadas.

Contudo, um pouco mais adiante se encontra uma grande densidade de cidades, com agroindústrias emergentes e cadeias produtivas consolidadas, como a leiteira, café e cereais, indicando que os dois cenários aparentemente antagônicos para a Amazônia fazem parte de uma mesma realidade.

No aspecto solo – paisagem, a variabilidade de ambientes é ainda mais complexa. Na Amazônia, as características mineralógicas e químicas dos solos são, em grande parte, ditadas pela natureza do material de origem. Em fração significativa da região, ocorreu a formação de solos profundos e muito intemperizados, como Latossolos e Argissolos. Entretanto, coexistem na região extensas áreas com solos eutróficos formados pela influência atual (planície aluvial) ou pretérita (terraços e baixos planaltos das bacias do Acre e do Alto Amazonas) de sedimentos andinos; ou, ainda, onde afloram rochas de maior riqueza em bases (calcários e margas em Monte Alegre - Ererê; basaltos e diabásios em Roraima, Pará e Amapá).

A vegetação associada a estas paisagens varia desde floresta densa, em solos profundos, normalmente de baixa fertilidade e cuja manutenção da biomassa depende da ciclagem biogeoquímica dos nutrientes, associadas normalmente a Latossolos ou Argissolos, até os campos cerrados de Roraima, sobre solos com propriedades nátricas ou os campos cerrados do sul do Amazonas, em Gleissolos, Plintossolos e Argissolos.

Há também a ocorrência da vegetação de campinaranas no vale do Juruá, associadas a Neossolos Quartzarênicos ou Espodossolos, ou as extensas áreas de floresta ricas em bambus, na região central do Estado do Acre, associadas a Vertissolos, Cambissolos vérticos ou Luvissolos, todos com alta riqueza em bases trocáveis e com a marcante presença de argilas de alta atividade. Nesses últimos solos, a mineralogia predominante de argilas do grupo das esmectitas associada a um ambiente com forte intensidade dos processos de intemperismo químico libera grandes quantidades de alumínio na dupla camada difusa, sem que este entre em equilíbrio com a solução do solo, tornando os métodos de correção da acidez pouco efetivos.

Esta diversidade de cenários indica que a Amazônia não requer uma solução única, seja do ponto de vista ambiental ou desenvolvimentista. Principalmente, o debate sobre as questões amazônicas necessita abandonar o empirismo e a defesa de 'verdades absolutas', tratadas como questão de fé, como se fosse uma religião, para uma visão mais integrada e construída a partir de pesquisa científica e tecnológica.

O desafio da extensão rural

Não se pode negar que, comparativamente as demais regiões brasileiras, a intensidade e a quantidade de tecnologias e de conhecimento sobre a Amazônia ainda é escassa, seja pelo baixo número de pesquisadores e de programas de pós-graduação ou pela escassez de recursos humanos qualificados.

Há, contudo, outro problema, onde inúmeras tecnologias, produtos e processos desenvolvidos na região, ainda não alcançaram a aplicação prática esperada. Os fatores associados a esta baixa aceitação e adoção de tecnologias estão, muitas vezes, relacionados a não atenderem adequadamente as necessidades ou possibilidades de aquisição do setor produtivo, ou seja, satisfação de expectativas e pretensões e incremento de rentabilidade pelo uso das mesmas.

Outro problema está no processo de transferência destas tecnologias. Frequentemente, a transferência de tecnologias pelas empresas de pesquisa agropecuária ou pelo serviço de extensão rural é determinada com base em políticas públicas, com fins eleitoreiros, ignorando completamente o próprio estoque de tecnologias desenvolvidas na região, quando não, na própria empresa. Há uma dissociação e comunicação inadequada entre pesquisadores e extensionistas, havendo assim uma necessidade urgente de estabelecer processos efetivos de comunicação entre estes atores.

Como fruto desta dissociação resulta que muitos pesquisadores e professores universitários passam a desempenhar o papel de extensionistas em ações como dias de campo, cursos, palestras e consultorias, mas, muitas vezes, não apresentam a mesma eficiência que alcançariam se trabalhassem de forma integrada com os extensionistas ou com os assistentes técnicos.

A invasão de papéis por parte de pesquisadores e professores prejudica o trabalho da extensão em identificar as principais demandas tecnológicas e tira o foco da pesquisa em buscar inovações tecnológicas para o setor produtivo, além de limitar o alcance das tecnologias que estão sendo transferidas.

Acrescente-se, ainda, que grande parte das ações de extensão rural são pouco transformadoras, permanecendo dependentes dos recursos em limitados editais de órgãos públicos e organizações não governamentais, muitas destas as verdadeiras beneficiárias dos recursos investidos, já que a situação do produtor rural permanece inalterada após a conclusão dos projetos.

Esta situação é agravada pela exigência de uma maior logística e carga horária adicional de trabalho para atender produtores isolados e pela maior demanda em infraestrutura de transporte devido à distância e ao acesso em muitas comunidades rurais da Amazônia.

A própria formação de recursos humanos na região ainda é precária. Os profissionais de cursos de ciências agrárias e humanas instalados em regiões rurais sofrem bastante, tendo em vista que a maioria das universidades e órgãos de pesquisa não proporciona, durante a formação acadêmica, o contato contínuo do discente com o agricultor. Nessa carência, são formados profissionais sem o conhecimento do cotidiano do produtor rural e, principalmente, sem a consciência da real estrutura fundiária do país e dos problemas sociais do campo.

Além disto, a maioria dos profissionais formados não atingem o conhecimento necessário para atuarem como agentes transformadores, ficando reféns de soluções oferecidas por consultorias contratadas para propor políticas públicas, mas que conhecem a realidade local apenas superficialmente.

Há necessidade de se repensar a atuação da interação pesquisa – extensão, e neste debate, a Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS) pode ter um papel relevante, tanto por agregar profissionais de diferentes áreas do conhecimento da ciência do solo e de atuação profissional, como pela possibilidade de atuar com agente cimentante de políticas públicas mais eficazes e que possibilitem a transferência de tecnologias adequadas para cada uma das realidades amazônicas.

Ações desenvolvidas para aproximação da pesquisa e a extensão

Existem diversas ações desenvolvidas que buscam romper a barreira entre a pesquisa e a extensão rural, e iremos destacar aqui duas experiências ocorridas no Estado do Acre e de Rondônia. Estas experiências não devem ser consideradas como modelos a serem multiplicados, mas como esforços que podem ser feitos para diminuir a distância entre a pesquisa e a extensão rural.

A primeira experiência trata de um serviço de extensão universitária realizado entre a Universidade Federal do Acre (UFAC) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Foi formalizado um termo de cooperação entre o INCRA e a UFAC, onde o primeiro fornece infraestrutura e logística para trabalhos de campo. Em contrapartida, a UFAC executa as atividades contidas no plano de trabalho que inclui oficinas e cursos nas comunidades, reuniões de sensibilização e organização das tarefas, visitas às propriedades, articulação de dias de campo em propriedades modelos, acompanhamento da saúde infantil, elaboração de projetos produtivos e de diagnóstico rural participativo.

Esta experiência tem sido de extrema importância, pois elucida a realidade da zona rural aos estudantes e aos professores participantes do projeto, além de possibilitar o convívio entre os acadêmicos, professores, pesquisadores, servidores públicos e agricultores familiares (Figura 2). Este convívio traz demandas para pesquisa, para as políticas públicas e, principalmente, engrandece os envolvidos por estimular a curiosidade e a busca por conhecimento e alternativas para o uso da terra.

Outra experiência tem sido a interação entre a Embrapa e produtores rurais do Projeto Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado (RECA), no distrito de Nova Califórnia, em Rondônia, na área de fertilidade do solo e nutrição de plantas. Neste intercâmbio, não se priorizou contato entre pesquisador e produtor rural, sendo a comunicação feita por técnicos da extensão rural da Emater do Estado de Rondônia e por técnicos contratados pelo projeto RECA.

Os técnicos definem as demandas urgentes, e a pesquisa fornece as alternativas tecnológicas, muitas vezes, ainda não disponíveis. O exemplo mais concreto foram as pesquisas desenvolvidas para melhorar a nutrição dos cupuaçueiros: No início de 2007, os técnicos indicaram as perdas de produtividade observadas nos pomares de cupuaçu e foi oferecido pela pesquisa a realização de estudos para avaliar a fertilidade do solo e a nutrição das árvores de cupuaçu.

Nos anos de 2007 a 2009 foram conduzidas pesquisas pela Embrapa, inclusive com a participação de estudantes da pós-graduação, e em 2009 e 2010, realizaram-se cursos para discutir, com base nos resultados alcançados, técnicas a serem adotadas para o manejo das adubações.

O contato pesquisador – técnico/extensionista permitiu valorizar a função do técnico junto aos produtores rurais, que passaram a ser os responsáveis pela difusão e transferência do conhecimento que estava sendo acumulado; ao mesmo tempo, o técnico/extensionista passou a servir como um importante mediador e, principalmente, possibilitou uma comunicação eficaz.

Até 2007, os pomares eram formados sem adubação e sem correção do solo, tendo sua produtividade comprometida. Atualmente, a maioria dos plantios utiliza a adubação fosfatada na cova e os pomares estão recebendo adubação de manutenção. Foi desenvolvido um sistema alternativo de recomendação de adubações que considera o nível de manejo tecnológico, a certificação orgânica de alguns pomares, a fertilidade do solo e o estado nutricional dos pomares (Figura 3). Os técnicos desenvolveram uma planilha eletrônica que facilita o cálculo das adubações para incluir a avaliação do estado nutricional fornecido pelo Sistema Integrado de Diagnose e Recomendação (DRIS).

Paralelamente, os produtores dão suporte a pesquisas básicas, mesmo que estas não tenham aplicação imediata, como pesquisa com macrofauna realizada como parte de dissertação de mestrado (Figura 4).

Este modelo de cooperação pesquisa – extensão foi facilitado devido à própria experiência dos produtores do projeto RECA, que possuem elevado nível de interação com instituições públicas e privadas. Deve-se destacar que tanto a pesquisa tem sido de qualidade, resultando em publicações em periódicos indexados, como os produtores têm se beneficiado pelas tecnologias desenvolvidas.

Conclusão

É emergente a necessidade de ações integradas entre pesquisa e extensão para propiciar avanços ao setor produtivo e, consequentemente, para o bem da agricultura e do meio ambiente na Amazônia, e a Sociedade Brasileira de Ciência do Solo pode e deve ter um papel fundamental neste processo, tanto pela importância dos solos no ambiente e nas soluções tecnológicas para o desenvolvimento da Amazônia, como pelo sua capacidade de agregar e articular soluções inovadoras.

Contudo, as soluções precisam ser construídas localmente, e para isto, é fundamental o aumento da disponibilidade de recursos humanos qualificados na Amazônia, seja pelo aumento do número de profissionais a serem formados, seja pela fixação de profissionais da região.

Paulo Wadt, Elízio Frade Jr & Alaerto Marcolan

Texto reproduzido do artigo de opinião A relação pesquisa e extensão na Amazônia, de autoria de Paulo Guilherme Salvador Wadt, Elizio Ferreira Frade Júnior e Alaerto Luiz Marcolan foi publicado no Boletim da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, volume 37, número 1, páginas 42 a 47. Maio de 2012.

Comentários

  1. Muito bom o texto! Me fez refletir que muitas das dificuldades de desenvolver um país, passa pela formação acadêmica de sua população. Assim, para a grande maioria das pessoas no Brasil, tal texto passaria imcompreensível, até mesmo, para pessoas com "nível superior". É com isso que os políticos contam: uma população ignorante, inerte, manobrável. Lembrando, que muitos agentes públicos (inclusives políticos) são analfabetos funcionais. Então, muitos projetos "não vão pra frente" simplesmente porque as pessoas não tem capacidade de entendê-los.

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