O desafio da sustentabilidade

Quem acompanhou os discursos dos principais lideranças políticas presentes na RIO+20 deve ter percebido o quão distante foi a percepção destes líderes quanto aos problemas ambientais e a propaganda de sustentabilidade realizada pelo atual governo do Estado do Acre.

Enquanto nossos representantes locais estavam preocupados em promover a comercialização de produtos madeireiros para um a promoção de um “Acre Sustentável”, outros líderes, como o presidente Rafael Corrêa (Presidente do Equador), nossa presidenta Dilma Rousseff e François Hollande (Presidente da França), entre muitos outros presentes, foram unânimes em priorizar a erradicação da pobreza como a principal objetivo do desenvolvimento sustentável.


O presidente Rafael Corrêa, por exemplo, em entrevista a um canal de televisão brasileiro, explicou que defende a exploração de minérios em seu país como uma alternativa para conseguir recursos para o fortalecimento da economia equatoriana. Segundo Rafael Corrêa, um dos maiores problemas ambientais do Equador está na poluição das águas nas cidades, e para resolver isto, será necessário ter recursos para atender os investimentos necessários.  Além disto, o crescimento econômico é necessário para melhorar a renda da população, via geração de empregos, por exemplo.

A fórmula que defendem é simples: crescimento econômico é um aliado no combate a miséria, e o combate a miséria é um pré-requisito para se alcançar a sustentabilidade ambiental.

Aqui no Acre, por sua vez, o crescimento econômico muitas vezes tem sido colocado como um obstáculo à sustentabilidade ambiental (ver), enquanto que a miséria tem sido tolerada como um fator necessário para impedir  a "destruição" da natureza.

Como exemplo desta política temos a situação do Projeto de Assentamento Tarauacá, o que não é nada diferente do Projeto de Assentamento Berlim Recreio, em Feijó, ou de dezenas de outros que se espalham pelo Estado do Acre.

É difícil descrever o que é hoje o Projeto de Assentamento Tarauacá. Há sete anos, os ramais eram ainda piores que hoje, não havia energia elétrica (muitas famílias já possuem este benefício) e não havia escolas próximas. Melhorou significativamente alguns serviços básicos, mas o que mais nos chama a atenção é que a pecuária representa a principal atividade econômica, quando os moradores queriam praticar agricultura para produção de alimentos.

As primeiras familias de moradores já transferiram (venderam) suas terras, ou se tornaram pequenos pecuaristas, concentrando terras compradas dos vizinhos mais próximos.

Aqueles que resistem à pecuarização, como a família síntese de Ozerina, vivem na miséria quase que absoluta.

A política de assistência técnica praticada na região foi uma falácia. Os técnicos que atuam no projeto não possuem recursos suficientes para mudar a situação e limitam-se a fazer visitas esporádicas para alguns produtores. Mas a grande maioria, nem mesmo foram atendidos.

Quando surge alguma instituição pública para apoiar a produção, faz de forma completamente desarticulada com a realidade, resultando sempre em prejuízos futuros para os produtores, como endividamento crescente.

A distribuição das mudas de bananeiras é um exemplo.

Quando se iniciou o incentivo a produção de bananeiras no Estado do Acre em Acrelândia, o projeto tinha como objetivo a produção de mudas micro propagadas de bananeiras (para garantir a sanidade das mudas) e a recuperação de áreas degradadas.

Com a distribuição das mudas, e muitas vezes, antes mesmo da própria distribuição, eram realizados cursos com os produtores onde os temas incluíam desde a gestão da propriedade, com a diversificação da produção, técnicas de plantio e cultivo e até mesmo sobre a comercialização. As ações de assistência técnica também eram articuladas com o crédito agrícola.

A distribuição das mudas fazia parte de uma estratégia mais ampla de diversificação e fortalecimento da renda do produtor rural e de ordenamento territorial, que incluía, até o incentivo para a recuperação de áreas de preservação permanente.

Quando o atual governo foi copiar o modelo de distribuição de mudas feito em Acrelândia para outros municípios, como fez no Projeto de Assentamento de Tarauacá, o programa praticamente resumiu-se à prática da doação de mudas. Quem as recebe, não é assistido por técnicos e também não fornecem qualquer tipo de contrapartida na gestão ambiental de sua propriedade ou mesmo para a geração de emprego ou renda. A distribuição de mudas torna-se, na maioria das vezes, um mero evento promocional no período pré-eleitoral.

Ainda, se o produtor resolver plantar as mudas que recebeu, não conseguirá vender sua produção, pois não terá na maioria dos casos quem compre sua produção pela falta de uma política de suporte à comercialização.

Esta forma de ação reflete a política da Florestania para os produtores rurais: a questão ambiental, reduziu-se a políticas punitivas e nenhuma orientação ou apoio para a gestão sustentável de suas terras.

O cidadão que vive no campo tem sido sistematicamente ignorado. É tratado como um agressor do meio ambiente; como um mal da sociedade que precisa ser combatido. Não recebe assistência social, não recebe assistência técnica, dentro de uma estratégia cujo objetivo lhe conduz à abandonar sua propriedade e ir trabalhar nas cidades.

Quanto se introduz uma nova tecnologia no meio rural, parece que a escolha recai sempre sobre aquela com maior inviabilidade, como que para garantir que não iria mesmo funcionar. E assim se pode afirmar: "O Acre não produz nada porque nossas terras são improdutivas e não suportam uma agricultura moderna ou tecnológica".
O Acre é um estado rico, com uma pequena população e cujos problemas são relativamente fáceis de serem resolvidos.

Não se justifica existirem Ozerinas.

Não se justifica ser a pecuária a principal fonte de renda nos assentamentos agrícolas (sem gerar emprego suficiente, já que emprego não é gerado pela pecuária extensiva em nenhum lugar do mundo).

O que precisamos é apenas de uma nova postura e uma nova visão. Priorizar a erradicação da pobreza como a principal objetivo do desenvolvimento sustentável. Priorizar o crescimento econômico para que possamos ter recursos para cuidar desta gente.

Há muito trabalho para ser feito: é preciso fazer chegar a assistência técnica no campo, é preciso levar aos produtores alternativas à pecuarização; é preciso tratar o meio ambiente com seriedade e planejamento técnico.

O caminho está no fornecimento de assistência técnica continuada, tanto por agentes agrícolas como ambientais, para que se possa desenvolver uma agricultura verdadeiramente sustentável, acesso ao crédito agrícola e a introdução de tecnologias de acordo com o perfil cultural e a aptidão agrícola das terras.

A fórmula é simples e temos os meios: produzir alimentos, aumentar a renda e proteger o ambiente. Precisamos trabalhar com seriedade e comprometimento com o produtor rural (ver ). Principalmente, precisamos acabar com esta bobagem que a venda de nossas florestas irá trazer recursos para importamos alimentos de outros estados e gerar emprego e renda para toda esta população.

Esse é o desafio da sustentabilidade que deveríamos estar buscando: eliminar a miséria no campo e nas cidades. Foi essa a mensagem dos principais presidentes para o "verdes" na Rio + 20: o combate a miséria é prioritário para o desenvolvimento sustentável!

E se combate a miséria se faz com apoio à produção, com apoio ao emprego, com apoio ao trabalho, ou seja, com crescimento econômico.

Paulo Wadt

Comentários

  1. Sou contra a devastação e o desperdício, mas sou contra, também, a pobreza, a fome e outras mazelas que afligem a humanidade. Dito isso, como podemos proteger o macaco, o cedro, se homem que vive no campo e na cidade estão desprotegidos, agredidos por não poder usar os recursos naturais? Como podemos tratar nossas florestas como jardins do éden, se expulsamos, prendemos ou matamos os adãos e evas? Não podemos preservar a natureza às custas da miséria do nosso povo, importando comida, móveis, empregos... É fácil defender a preservação da natureza enquanto está de barriga cheia, mamando nas tetas do Estado, de ONG´s estrageiras, vivendo no primeiro mundo, aposentado com quatro anos de trabalho... Qualquer habitante das periferias ou da zona rural gostaria dessas regalias...

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