A fumaça e ausência de tecnologia são nossa realidade


O uso do fogo em áreas agrícolas foi uma prática adotada corriqueiramente em todo o Brasil para a limpeza de áreas agrícolas ou, em áreas de fronteira agrícola, para a conversão de áreas florestais em áreas agrícolas ou pastagens. Essa foi uma tecnologia rotineira, apesar de resultar em maior exposição ao solo aos processos erosivos e no empobrecimento paulatino de sua fertilidade natural.

 E a cultura do uso do fogo, principalmente na limpeza de áreas agrícolas, foi um fator não somente social mas também econômico, pois diante da indisponibilidade de outras técnicas para o preparo das áreas de plantio ou para a limpeza das áreas, o fogo representou uma alternativa barata e de fácil adoção.


Nunca foi culpa de um ou outro governo o uso indiscriminado do fogo, pois todos apoiavam essa técnica, por facilitar principalmente a expansão da agricultura na Amazônia.

Entretanto, a partir da década de 1990, foi associado à emissão de carbono para a atmosfera como um dos possíveis responsáveis pelo aquecimento global, no chamado "efeito estufa".  E para reduzir as consequências do efeito estufa em escala global, iniciaram-se ações para a redução das emissões de gases de efeito estufa.

O governo do Acre, para vender uma imagem de responsabilidade ambiental comprometeu-se com a batalha ambiental para a redução das emissões no campo, e passou a dificultar cada vez mais as queimadas. E para convenceu a população local de que suas políticas ambientais estavam sendo efetivas, preocupou-se em difundir que a fumaça que tanto incomodava a população no período das queimadas não era originada no Acre, mas em seus vizinhos, como que a dizer: "aqui nós cuidamos na natureza, mas nossos vizinhos não".

Recentemente, desculpa foi por água abaixo (ou perdeu-se na fumaça?), conforme matéria do jornal Acre Alerta, que destaca que "O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou no dia 11 de junho último um diagnóstico que desmente a alegação do governo do Estado e dos gestores dos órgãos ambientais locais sobre a origem das fontes emissoras das nuvens de fumaça que atingem o Acre no período de verão.

Sempre que a situação se agravava, o governo tratava logo de transferir a responsabilidade para outros estados e até mesmo países vizinhos, como Peru e Bolívia.



O estudo, encomendado pelo Ministério Público Estadual (MPE), indicou que em 2005, ano que se registrou o maior índice de queimadas no Acre, 70% da fumaça foi realmente produzida em solo acreano".

Mas há um outro problema maior que esse desmentido.

Em 2009, a Justiça Federal concedeu liminar em ação civil pública movida pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual no Acre para proibir progressivamente a autorização de queimadas no estado, fixando prazo para que o poder público adotasse medidas compensatórias, com vistas a reparar as consequências socioeconômicas advindas da supressão do uso do fogo.

O que temos a perguntar é: passados três anos, quais foram estas medidas compensatórias? Aplicar multas aos produtores rurais? Criar um instituto de mudanças climáticas que nada faz além de consumir o orçamento do estado em ações de pouca efetividade?

Quais tecnologias alternativas foram disponibilizadas aos produtores rurais? Quais os incentivos que foram criados para a adoção desta tecnologia?

Ou essas medidas compensatórias foram também apenas fumaça?


Paulo Wadt

Comentários

  1. A situação da fumaça na cidade é lamentável. Diz a lenda que quanto maior a cidade, maior a poluição. Mas em 21 anos vivendo em São Paulo, nunca respirei tanta fumaça quanto respiro agora em Rio Branco.

    Há épocas em que não se pode deixar roupa alguma fora de casa para secar, pois fica fétida e torna-se necessário lavar novamente.

    Ao abrir a janela já se pode sentir cheiro. Algo assim só é concebível mesmo nessa cidade...

    Haja dor de cabeça, tosse e nebulização. Haja chá de cadeira na fila do hospital. Haja dinheiro pra remédio.

    E claro, haja desculpas dessa porcaria de governo.

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