Até quando o Acre será uma terra de poucos favorecidos?

Logo que cheguei ao Acre (2001) tive uma discussão com um colega de trabalho, onde eu dizia que em dez anos o Acre poderia estar produzindo muito alimento e ter uma agricultura tecnologicamente avançada.

Acreditava que poderíamos produzir sem repetir os erros ocorridos em outras regiões do país e ainda teríamos a oportunidade de aproveitar a experiência e o conhecimento acumulado sobre manejo de solos tropicais.


Este colega dizia que isto não iria ocorrer, porque os solos do Acre seriam frágeis e improdutivos e não suportariam qualquer atividade agrícola mais intensiva. Em dez anos, ainda não haveria produção de alimentos no Acre por ser tecnicamente insustentável.

Cheguei a fazer uma aposta e que já está chegando a hora de pagar: disse que pagaria um engradado de cerveja se ele estivesse certo e a agricultura não se desenvolvesse no Estado.

Perdi a aposta. E agora preciso pagar o valor da caixa de cerveja.

Foram necessários nove anos para se começar a quebrar a mentira sobre os solos do Acre. Os solos aqui não são iguais aos de outras regiões da Amazônia ou do pais: são simplesmente melhores (ver): mais férteis e com problemas menos restritivos que solos semelhantes de outras regiões.

Mas ele estava certo em outras coisas que somente agora começo a entender melhor. Ele faz parte desse grupo de pessoas que defende a Florestania com unhas e dentes, pertence à Frente Popular e não produz nada de útil.


Para pessoas como ele, sempre foi mais fácil dizer que aqui não se produz porque nossos solos não permitem, nosso clima é ruim, ou que "as coisas aqui são diferentes".

Há muito tempo a falta de produção nos incomoda. Em 2010, Cleomilton Filho registrou em seu blog "como aqui não se produz absolutamente nada, os caminhões e carretas que chegam para abastecer o estado voltam vazios. Isso causa um prejuízo grande aos fornecedores e encarece os produtos que consumimos”.

Assim, além de eu ter que pagar a aposta, ainda vai custar o frete de volta do caminhão que retorna vazio.

E já não apostaria com tanta segurança que em dez anos seria possível mudar a realidade.

Hoje compreendo melhor a política do Barracão de Seringal, que ainda permeia o subconsciente de muitos residentes no estado.

Compreendo porque enquanto o Estado de São Paulo mesmo possuindo o maior volume de obras e investimentos do país convive com a legislação ambiental mais avançada e com maior independência dos órgãos de licenciamento, como a CETESB; por aqui a política ambiental só é levada a sério quando é para evitar a autonomia econômica da população - proibindo-a de produzir seus próprios alimentos ou ter receita própria, de forma muito semelhante ao era efeito nos antigos seringais (ver).

Compreendo porque o próprio governo não respeita instituições como o Ministério Público Estadual, colocando-o contra a opinião pública quando este exige as licenças ambientais e estudos de viabilidade técnica para os empreendimentos governamentais, como a "Cidade do Povo" (ver).

Compreendo o quão difícil será a luta de pessoas como Tião Bocalom, quando diz que é necessário deixar que as pessoas possam trabalhar e produzir.

Especialmente, compreendo melhor a dificuldade que terá Tião Bocalom quando diz que é necessário valorizar o cidadão, justamente nestas terras onde o homem sempre foi uma força de trabalho escrava para explorar os recursos ambientais em benefícios de uns poucos.


Paulo Wadt


"Será que nunca faremos se não confirmar
A incompetência da América Católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos? "

 Podres Poderes, de Caetano Veloso

Comentários

  1. Povo produtivo é povo independente!
    Independente do assistencialismo público e do trabalho exploratório, ou seja, povo produtivo é prejuízo para exploradores político e econômico do povo.

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  2. Nobre Paulo, seu sonho de Agricultura intensiva no Acre se realizará e terá como resultado essa mesma paisagem que há no fundo da sua linda foto: pura aridez...

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