O rei do Butão e o rei do Acre

Em 1972, em resposta a críticas que afirmavam que a economia do seu país crescia miseravelmente, o rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, deve uma idéia para solucionar o problema: promoveu a criação do termo Felicidade Interna Bruta (FIB), em contrapartida ao Produto Interno Bruto (PIB).

Quarenta anos depois, agora em 2012, o rei do Acre parece que também encontrou a resposta para o problema da falta de crescimento econômico do Estado: está propondo a criação de um novo indicador que possa substituir o PIB  (veja links nos jornais O Rio Branco ou Página 20).

Não sabemos como será o nome do novo indicador. Mas poderia ser Produto do Planeta Sustentável, Produto do Planeta Feliz, Produto Interno Verde, ou mais provavelmente um nome com alto impacto em marketing político.

Com o novo índice de desenvolvimento econômico, social e ambiental, será possível demonstrar a convivência harmoniosa do povo acreano com a natureza (ou com as florestas, como preferimos por estes lados).

Fico imaginando o cenário: água encanada e tratada não seria mais necessário, pois isto somente serve para aumentar o fluxo de capitais. Melhor é que cada um vá buscar água no igarapé mais próximo. E já aproveitariam, para no caminho fazerem suas necessidades pessoais, pois é melhor deixar estas coisas se decompondo naturalmente no meio ambiente do que jogar em uma rede de esgotos. E o dinheiro que sumiu no ralo para resolver o problema do saneamento básico na cidade de Rio Branco já não seria problema, porque nem ralo haveria.

Mesmo que demore ter que ir buscar a água no balde, não haveria importância, já que a maioria da população que está desempregada, agora teria o que fazer para passar o dia. Afinal, o emprego somente serve para aumentar o fluxo de capitais, o que também é insustentável.

O problema da distribuição de renda poderia até não ser bem resolvido de forma definitiva, porque ainda haveriam os altos salários dos cargos comissionados e dos secretários, porque alguém teria que fazer o sacrifício para gerir esta sociedade feliz. Mas tirando estes, não haveria nem mesmo renda para ser distribuída. Portanto, outro problema resolvido.

E quanto a questão da alimentação? Não seria mais necessário trazer os alimentos de Rondônia, como o arroz, o feijão, o leite e os ovos que consumimos e todo o restante que vem de fora. Tudo alimento insustentável. Vivendo da floresta, poderíamos caçar e termos uma alimentação mais saudável com suculentos jabutis, papagaios e macacos, misturado com a farinha de Cruzeiro do Sul, este último, um mal necessário. Mas também não queremos a perfeição. Ou queremos?

E ainda seria possível economizar recursos do Estado com a saúde pública e as filas nos hospitais e postos de saúde, pois a floresta nos proveria com suas ervas medicinais e suas curas milagrosas.

Seríamos melhores que todos os demais estados do país. E ainda poderíamos exportar para o resto do mundo nosso conhecimento adquirido com a convivência harmoniosa entre o homem e a floresta.

Tudo isto porque este negócio de ter que fazer casas populares, pavimentar ruas e calçadas, fazer rede de esgoto e distribuição de água tratada, melhorar a qualidade da educação, melhorar os serviços de saúde pública, promover o aumento do emprego é tudo muito cansativo para o rei do Acre e sua corte.

É claro que nem todos seriam beneficiados. A corte do rei teria que se sacrificar vivendo um estilo de vida insustentável (com água tratada, esgoto, altos salários), mas tudo seria feito pelo bem da humanidade.

Ou não se acredita mais em contos de fada?
Paulo Wadt

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