O que se pretende ocultar ao questionar o uso do PIB no Acre?

Recentemente, alguns líderes políticos ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT) do Estado do Acre têm defendido abertamente a revisão do indicador econômico Produto Interno Bruto (PIB), por substituição de outro indicador que possa refletir adequadamente o desenvolvimento regional.


O PIB é um dos indicadores mais utilizados na macroeconomia com o objetivo de mensurar a atividade econômica de uma região e representa a soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região, durante um período determinado de tempo.

Por tratar-se de uma medida de fluxo de produção, não considera outros fatores importantes para o entendimento da economia, como por exemplo: capital social, capital humano, capital natural, nível de eficiência de instituições.

Também não leva em consideração diferenças na distribuição de renda entre pobres e ricos (distribuição de renda), diferenças na qualidade de bens e serviços, transações não comerciais e o mercado informal.

Um dos argumentos usados para propor a revisão, por exemplo, é que o município de Santa Rosa do Purus, por ter uma grande extensão de terras indígenas não possui sua riqueza adequadamente expressa pelo PIB, o que não devia ser uma surpresa, já que a população indígena realiza suas transações de forma informal e sem vínculos como o mercado comercial e, ou, financeiro.

Todavia, o problema que está por trás deste questionamento de um dos indicadores macroeconômicos é a tentativa de esconder da população local o fracasso que foi a política econômica que se fundamentava na Florestania, quando o Estado do Acre perdeu o bonde da história do crescimento mundial.

No período de 2002 a 2007 enquanto a econômica mundial cessou uma série de crises econômicas e desenvolveu-se em todos os países e regiões, com as maiores médias de crescimento mundial dos últimos 30 anos, o que influiu diretamente no progresso verificado na economia brasileira que teve recordes sucessivos de crescimento e arrecadação, vivíamos a ilusão de que a Florestania seria a solução econômica para o Estado do Acre, por meio de uma massiva propaganda estatal e o engajamento quase que unânime de toda a mídia local.

Agora, com o realinhamento para um novo cenário econômico, onde pelo menos no médio prazo não se cogita um novo ciclo de desenvolvimento e crescimento das econômias como o observado no início da década de 2000, e com a consequente aperto nos gastos públicos federais que deverão passar por um maior rigor quanto a sua necessidade e eficácia, estes líderes políticos resolveram encontrar no PIB o vilão para não ter que explicar as causas verdadeiras do fracasso de suas políticas.

As recentes medidas de ministérios da presidente Dilma Rousseff em suspender ou transferir para a esfera federal a gestão de investimentos públicos federais,que até recentemente eram administrados pelo Governo do Estado do Acre, aponta para que haverá a partir de agora maior controle destes gastos e maior preocupação os resultados a serem obtidos, já que, muitos dos dos programas e investimentos feitos com recursos federais não resultaram nos benefícios proclamados por estes programas.

Mas vamos analisar alguns números do PIB para que possamos entender melhor uma única implicação deste indicador macroeconômico, comparando-se algumas cidades médias do interior de Rondônia com nossa capital e cidades do interior do Estado do Acre.

No IBGE podemos consultar o aplicativo "Cidades@" (www.ibge.gov.br).

Ao avaliarmos o PIB de Vilhena-RO verifica-se que este é da ordem de 1,187 bilhão de reais. Com este PIB, Vilhena sozinho representa 31% do PIB de Rio Branco, estimado em 3,837 bilhões de reais.

E não é só Vilhena. Ji-Paraná, também em Rondônia, tem um PIB de 1,401 bilhões de reais, e Ariquemes-RO, de 1,040 bilhões de reais. Portanto, as três cidades do interior de Rondônia superam o PIB de Rio Branco.

Quanto ao PIB de cidades do interior do Acre, vamos tomar como exemplo duas cidades do Vale do Juruá (principalmente porque uma delas é a segunda mais importante do estado): Porto Walter: 0,064 bilhões. Cruzeiro do Sul: 0,684 bilhões.

Que implicações isto representa para as economias regionais? Como o PIB mede o fluxo de produção de uma determina região, impacta diretamente na geração de empregos. Isto é claro de entender: se não há produção, não há geração de renda e, portanto, não há também como os setores produtivos (públicos ou privados) gerar empregos.

No próprio site do IBGE podemos verificar como isto ocorre, ao dividir o número de pessoas ocupadas pelo total da população em cada um destes municípios, e temos então (pessoas formalmente ocupadas/total da população = porcentagem de pessoas ocupadas em relação ao tamanho da população):

Porto Walter = 480 / 9.176 = 5,2%
Cruzeiro do Sul = 7.008 / 78.507 = 8,9%
Ariquemes = 17.007 / 90.353 = 18,8%
Ji Paraná = 24.968 / 116.610 = 21,4%
Vilhena =   16.915 / 76.202 = 22,2%
Rio Branco =   87.380 / 336.038 = 26,0%

Isto significa que, se o fluxo de produção (PIB) não for relevante como um dos indicadores de política pública, não vai tardar o tempo de que estes mesmos líderes políticos irão defender também a mudança do índice de desemprego. Ou como então iriam conseguir explicar a falta de empregos?

A falha da política da Florestania foi acreditar que seria possível o desenvolvimento do Estado do Acre sem um forte estímulo também a produção.

Fração importante da população do Estado do Acre já entendeu que é importante produzir para gerar emprego, aliás, algo que já se sabe em todo o mundo civilizado. Mas outros ainda permanecem, creio eu, iludidos.

Paulo Wadt

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