A coisa não pode continuar como está
"Esta é minha mensagem para vocês: encarem as coisas com mais calma.
O que me preocupa é que eu noto que o governo do Estado do Acre se interessa muito pela pesquisa, então vocês tem a responsabilidade de dar resultados o mais rápido possível, (resultados) práticos, para o agricultor.
A coisa não pode continuar como está: vocês não controlam a situação (desmatamento, utilização do solo).
Vocês (do Governo do Estado do Acre) tem que pensar muito sério nisto, de forma que o governo do estado continue dando recursos para vocês e não fique só na coisa de mapas (confeccionando mapas).
Esta é a minha preocupação."
O texto acima é uma transcrição livre de um discurso espontâneo proferido pelo Dr. Rafael David Santos, em 2010, em Tarauacá, durante viagem pelo Estado do Acre, cujo vídeo está disponível logo abaixo.
Ele mostra a indignação de um pesquisador já aposentado com alguns colegas mais jovens e que estavam trabalhando para o Governo do Estado do Acre.
O que ele estava dizendo, é que os solos do Estado do Acre são melhores que os outros solos da Amazônia e que não seria aceitável ficar dizendo que aqui não se produz porque as condições não permitem.
Também questionava a falta de respostas (políticas) efetivas para apoiar os produtores rurais.
Em poucos dias ele se mostrou "cansado" com a falação de aqui não se produz porque nossos solos seriam ruins. Uma falação que já estamos ouvindo há mais de 13 anos. Na época, o evento foi amplamente divulgado na mídia local, mas é claro, não se divulgou nenhum trecho das palavras indignadas do Dr. Rafael Santos.
No final do evento, em função deste seu discurso e de sua imensa contribuição para a Ciência do Solo, o Dr. Rafael Santos foi oficialmente homenageado pelos pesquisadores e cientistas presentes no evento, na plenária final realizada no Auditório dos Autonomistas, recebendo uma placa comemorativa.
O vídeo completo segue abaixo e está disponível no sítio oficial do evento (www.rcc.agr.br), sendo parte do material "video-aulas da IX RCC".
Por ser uma linguagem técnica, faço abaixo uma breve descrição de seu contexto e uma transcrição livre do teor, com explicações para alguns dos muitos termos técnicos utilizados.
O Dr. David Santos foi amplamente aplaudido, com entusiasmo pela maioria dos presentes, enquanto que outros ficaram um tanto constrangidos. Esta parte não foi gravada, mas ficou na memória de muitas pessoas.
Resgato este vídeo pela importância de seu conteúdo, mas também para acabar com esta história de que somente nos quadros atuais da "Frente Popular" haveriam pessoas preparadas tecnicamente para gerir o estado e de que na oposição há somente "picaretas".
Há outros pontos de vista e outras opiniões. Talvez até mais compromissadas com a Amazônia do que aqueles que vivem dos salários do governo e que aqui trabalham.
Breve histórico:
O vídeo acima foi produzido em 2010, às vésperas das eleições de outubro, e foi gravado durante uma reunião que ocorreu no Estado do Acre com a presença de vários especialistas da área de ciência do solo, denominada "IX Reunião Brasileira de Classificação e Correlação de Solos - IX RCC" (destinada a agrônomos, biólogos, geólogos e outros técnicos com experiência em classificação e ordenamento do uso da terra). Os participantes viajaram durante uma semana entre Cruzeiro do Sul e Rio Branco, conhecendo alguns solos do Estado do Acre (www.rcc.agr.br).
Durante esta viagem, um dos participantes - Dr. Rafael David dos Santos, considerado um dos maiores especialistas da área no Brasil, ficou indignado com vários colegas seus (do Estado do Acre e de outras regiões do Brasil) que estavam dizendo que os solos daqui seriam improdutivos ou difíceis de serem cultivados. Apesar de sua idade avançada, preparou um discurso espontâneo e se dirigiu pessoalmente aos principais técnicos da área de solos presentes que trabalham para o governo do Estado do Acre.
A equipe de reportagem que acompanhava a viagem para a produção de um vídeo técnico financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Ministério da Educação, gravou uma parte deste discurso (faltou o início do discurso e o final, pois a manifestação foi espontânea e a equipe de gravação não estava preparada; além disto não havia bateria na filmadora da equipe para gravar todo o discurso).
O conteúdo do vídeo para leigos:
A linguagem utilizada pelo Dr. Rafael David foi extremamente técnica, pois se dirigia para técnicos da área de solos que trabalhavam (trabalham) para o governo do Estado do Acre, em cargos de direção.
Na transcrição abaixo, os trechos entre parênteses são explicações sobre o significado dos termos técnicos utilizados.
Basicamente, seu discurso foi apresentar as características das principais classes de solos presentes no Estado do Acre, comparando-os com demais solos da Amazônia:
- Os Latossolos Amarelos do Acre, são iguais aos outros Latossolos da Amazônia, mas com a vantagem de não serem coesos (compactados) e serem mais friáveis (leves), portando, de mais fácil manejo (mais fácil utilização).
- Também entre os Argissolos Amarelos, os do Acre são melhores por não serem coesos. No Acre, também estão sujeitos a menor ocorrência de plintita (endurecimento das partículas que impede a circulação de água e dificulta o desenvolvimento das raízes). (Latossolos e Argissolos são as principais classes de solos que ocorrem no Brasil)
- Os Espodossolos do Acre não diferem dos Espodossolos da Amazônia (Espodossolos são solos muito arenosos e com uma camada de impedimento a circulação da água em profundidade. Os daqui são iguais aos de outras regiões).
- Os Plintossolos do Acre são mais jovens e mais incipientes (novos, recém formados) que os Plintossolos da Amazônia. Nas outras regiões da Amazônia, o Plintossolo é pétrico (indicando que o endurecimento atingiu o grau mais elevado) e argilúvico (possuem variações grandes no teor de argila em profundidade). Tudo isto indica que o processo de endurecimento do solo ainda está no começo aqui no Estado do Acre, e portanto, os solos apresentam menor gravidade quanto aos problemas físicos (são mais fáceis de serem cultivados).
- No restante da Amazônia, não tem Luvissolos (como no Estado do Acre), mas tem "Litossolos" (Neossolos Litólicos) no Pará, Rondônia e Roraima (Luvissolos são solos jovens, com elevada fertilidade natural enquanto que os "Litossolos" são solos que podem serem férteis ou infertéis, mas mesmo quando férteis, apresentam problemas de utilização pela elevada presença de pedras ou pedregulhos, que diminui a reserva de água do solo e dificulta seu manejo). (Plintossolos são solos cuja evolução resulta em uma camada endurecida, que pode formar placas extensas. A "piçarra" que conhecemos aqui no Acre são partículas de plintitas, que podem se endurecer e criar lages impermeáveis com centenas de metros de extensão).
- Vertissolos também ocorrem no Acre e outras regiões da Amazônia. (Vertissolos, são solos de fertilidade extremamente alta, que chegam inclusive a causar problemas físicos e podem chegar até a serem alcalinos. A maioria dos solos brasileiros são ácidos e exigem a aplicação de corretivos para eliminar a acidez, enquanto que os Vertissolos não requerem a técnica da calagem).
- A turma aqui (pesquisadores e cientistas) estão apavorados com estes solos, mas os problemas dos Latossolos Amarelos coesos (do restante da Amazônia) são muitos sérios, aqui são mais fáceis de resolver. A mesma coisa acontece com os Argissolos do restante da Amazônia, que são mais difíceis de trabalhar (de usar para fins de produção agrícola) (julga que não há motivo de preocupação, porque as coisas aqui deveriam serem mais fáceis que nas outras regiões da Amazônia).
- Esta é minha mensagem para que vocês encarem as coisas com mais calma ("ser..", (sic). O que me preocupa é que eu noto que o governo do Estado do Acre se interessa muito pela pesquisa, então vocês tem a responsabilidade de dar resultados o mais rápido possível, (resultados) práticos, para o agricultor.
- A coisa não pode continuar como está. Vocês não controlam a situação (desmatamento, utilização do solo).
(Depois, dá um exemplo de um trabalho realizado na Aracruz Celulose, onde identificou 36 unidades de manejo diferentes apenas para os solos Latossolos Amarelos do Espírito Santo.Na Aracruz Celulose, cada unidade de manejo recebe uma técnica diferente que pode ser quanto ao clone de eucalipto cultivado ou as operações de preparo do solo).
- Então, vocês (governo) tem que pensar muito sério nisto, de forma que o governo do estado continue dando recursos para vocês e não fique só a coisa no mapa. Esta é a minha preocupação.
Paulo Wadt
O que o Dr Rafael falou tem que ser levado a sério, pois ele é uma autoridade nos Solos do Brasil. Tem profundo conhecimento é muito respeitado nas suas opiniões e sabe muito do assunto.
ResponderExcluirObrigado por divulgar um pouco do que ocorreu na RCC 2010. Considero esse pronunciamento do Dr. Raphael como sendo uma verdade...precisamos sair um pouco da espacialização (mapa), muitas vezes errônea, e partir para as especificidade.
ResponderExcluirFinalmente alguem explicou esses solos do Acre de uma forma entendivel....
ResponderExcluirPQ SO FUI VER ISSO DEPOIS DA PROVA.... maldicao!