A greve remunerada dos professores universitários

Por Alberto Carlos Almeida*

Você, leitor, provavelmente nunca teve o privilégio de parar de trabalhar e, mesmo assim, continuar recebendo o salário integral na data correta. É o que acontece agora com os professores das universidades federais. Desde 17 de maio, eles estão em greve. Pararam de dar aulas e continuam recebendo seus salários. Igualmente grave é sermos nós, contribuintes, que pagamos o salário de quem não trabalha.É um absurdo em cima de outro absurdo.

Os professores grevistas, em sua maioria, concluíram o doutorado, ao passo que a grande maioria dos brasileiros jamais pôs os pés num curso de graduação. Os doutores são uma minoria ínfima de nossa população adulta. A minoria mais qualificada do ponto de vista formal e, portanto, mais preparada para obter recursos com o próprio mérito. Mas não querem isso.

Preferem mais impostos. Sim, pois, caso o governo ceda às reivindicações dos grevistas remunerados, terá de aumentar os impostos, uma vez que elas resultariam em mais gastos. Parece piada: aumentar impostos para destinar mais recursos a uma minoria que tem o doutorado completo e reivindica por meio de greves remuneradas.

Fui professor da Universidade Federal Fluminense entre 1992 e 2005 e nunca fiz greve. Aprendi na própria universidade federal que as greves são inúteis. Não pressionam o governo, não atingem seus objetivos e apenas prejudicam os alunos. A greve é só de aulas.

Os professores não param de fazer suas pesquisas, não deixam de ir a seminários científicos – nunca recusam viagens pagas pelo contribuinte – nem deixam de enviar seus relatórios de pesquisa aos órgãos de financiamento. Se fizerem isso, podem perder a bolsa de produtividade em pesquisa, o que é equivalente ao ponto cortado. Só há um prejudicado com a greve: o estudante.

Greves são situações de conflito em que os trabalhadores param com a finalidade de pressionar os patrões a negociar. Obviamente, toda greve precisa impor prejuízos aos patrões. É o que ocorre em qualquer empresa privada.

Quando os operários do setor automobilístico param, a produção de carros despenca e, com ela, cai a capacidade de vendas da empresa, sinônimo de prejuízo. Os patrões sentam-se então à mesa para negociar. A disposição de ceder aumenta à medida que os prejuízos crescem.

Os professores doutores grevistas remunerados não impõem nenhum prejuízo ao governo federal. Pararam de dar aulas, e isso não reduz a arrecadação, não leva à queda da popularidade de Dilma nem faz cócegas em Brasília. Os responsáveis por aumentar nossos impostos para atender à reivindicação dos grevistas apenas ouviram falar que os estudantes das federais estão sem aula. Não há poder de pressão.

Exatamente por isso, e porque o governo não corta o ponto, trata-se de um movimento que tende a se alongar. Já se passaram 45 dias. No passado, as greves começavam anualmente com data marcada, sempre em maio.

O único limite é o tempo de reposição das aulas. Como há aproximadamente três meses anuais de férias universitárias, elas não duram muito mais que três meses. Tampouco alcançam seus objetivos. Antes de 2005, houve mais de dez anos consecutivos de greves remuneradas com data marcada. Em dez anos, não houve melhora visível das universidades federais.

Entre 2005 e 2010, o orçamento das 57 universidades federais aumentou 120%, sem contar os gastos com aposentados e pensionistas. Elas receberam quase R$ 20 bilhões em 2010, de acordo com o Ministério da Fazenda. No mesmo período, as vagas para estudantes de graduação cresceram somente 58%, segundo o Ministério da Educação.

Os professores grevistas têm a obrigação de prestar contas a nós, contribuintes, acerca das razões do descompasso entre o aumento de 120% no orçamento e de 58% das vagas. Dados do Ministério da Educação revelam que, em 2010, as federais ofereceram 938 mil vagas para graduação. Entre 2001 e 2010, as federais não conseguiram dobrar as vagas em cursos de graduação, ao passo que as privadas saíram de 2 milhões de vagas para 4,7 milhões.

Os professores das federais são contra salas de aula com 100 ou 200 alunos. Defendem poucos alunos, sob o argumento elitista de que, para treinar bem, é preciso poucos estudantes em sala. Mas o Brasil precisa massificar o ensino universitário, não elitizá-lo. Estudei na London School of Economics (LSE) e frequentei salas de aula com mais de 100 alunos. A LSE forma melhor que qualquer uma de nossas federais e suas salas com poucos alunos.

Os professores doutores grevistas remunerados também afirmam que os tais 120% a mais foram destinados à pesquisa. Mas os principais centros de pesquisa das universidades públicas não entram em greve e obtêm recursos adicionais por meio de contratos com empresas. Os professores grevistas atacam os professores que buscam vender pesquisas para empresas, acusando-os de “privatistas” e “neoliberais”. Para os grevistas, só um tipo de recurso não é pecaminoso e assegura a independência acadêmica: aquele que vem do Tesouro nacional – do nosso bolso.

A greve remunerada é sinal de que nossos governantes não têm ainda a coragem necessária para enfrentar o professor funcionário público. O governo optou pela solução tipicamente brasileira: não entrar em conflito com os grevistas remunerados e deixar o sistema universitário privado crescer.

Vai demorar um pouco, mas é inevitável: as universidades privadas passarão a atuar também em pesquisas científicas de ponta. Já tomaram o lugar das federais na formação de alunos, tomarão também na pesquisa científica. O contribuinte agradecerá.



* sobre o autor: Cientista político, autor dos livros A cabeça do brasileiro e O dedo na ferida: menos imposto, mais consumo. E-mail: alberto.almeida@institutoanalise.com.br.

Comentário: o artigo acima nos leva a uma reflexão sobre o futuro da Universidade Pública no Brasil, onde a ausência de greves, gestão profissional e financiamento público via  Programa de Financiamento Estudantil (FIES) poderá resultar em um atrativo diferencial inclusive para atrair ainda mais investimentos públicos, principalmente em alguns setores onde o capital privado também tem procurado investir nas pesquisas, como o setor automobilístico, da ciência da computação, de comunicação e da área de genética agrícola (vegetal/animal), por exemplo.

Comentários

  1. Paulo, Boa Tarde.
    Não sei com vc tem coragem de publicar o artigo desta pessoa, pois fica claro na fala dele uma total lealdade aos interesses do governo.
    Paulo, o professor universitário em sua grande maioria, ganha muito menos do que diversos profissionais que tem uma mínima qualificação.
    A greve pode sim resolver a situação da educação neste país, pois as reinvindicações não são somente por salário, mas também por melhorias na qualidade da educação.
    Acho que este cidadão deveria se atualizar e se inteirar do que é ser professor mal remunerado de um instituição pública de educação.
    Acho este cidadão um verdadeiro burguês que serve de escudo aos descasos do governo com a educação pública.
    Desculpe meu desabafo, mas repudio totalmente as palavras deste doutor que se diz professor universitário.

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    Respostas
    1. É preciso refletir sobre quem realmente beneficia-se com a greve, se a universidade pública ou as privadas.

      O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), professor e ex-reitor da UNB, em discurso no dia 09 de julho fez um apelo pelo fim da greve dos professores das universidades federais.

      Segundo a Agência Estado (http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,cristovam-buarque-pede-solucao-para-greve-dos-professores,898000,0.htm) "ele chegou a pedir ao senador Waldemir Moka (PMDB-MS), que presidia a sessão, que informasse ao governo que já “entramos no século 21”.

      Para Cristovam Buarque, a atividade dos professores não pode ser comparada à de um operário da construção civil, pois a cabeça de um aluno “não é uma parede esperando um tijolo”. O trabalho de construção pode ser recuperado, mas a atividade do conhecimento fica comprometida, explicou.

      "Creio que o governo ainda não percebeu isso. Porque não se justifica uma greve de professores durar 60 dias. Aliás, nem a greve se justifica no século 21", disse o senador.

      Apesar de criticar o governo, o senador disse que os professores também não entenderam que o mundo já vive o século 21. Segundo o senador, os professores não perceberam o prejuízo que causam ao país, com uma greve tão demorada.

      Buarque pediu ainda que as universidades equilibrem a atenção dada aos cursos da área de humanas e aos da área científica e ressaltou que as reivindicações dos professores são justas. "Quando a universidade para, o país também para na produção do conhecimento. Que haja mais recursos, mas que haja transformação."

      No dia 18 de julho, em novo discurso no senado, o Buarque propõe que seja criada uma comissão permanente de negociação, para que as greves sejam utilizadas como último recurso, uma vez que, segundo o argumento do senador, não tem resultado em efetividade na negociação (refletindo nos salários atuais dos professores universitários).

      Mas o artigo que reproduzi aponta para outro aspecto, que é fortalecimento paulatino do sistema privado de ensino superior

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  2. Parecce que o "Dotô" é muito chique, estudou nos States e tudo...mas parece que das universidades brasileiras ele conhece pouco.
    Eu gostaria de saber - a que horas o professor universitário vai ganhar dinheiro "por fora"? Só a nível de situação, as universidades, e os professores universitários fazem não apenas dar aulas, mas também pesquisa e extensão. Porquê os pesquisadores da EMBRAPA, por exemplo, ganham o dobro para fazer a mesma coisa que os professores fazem. Por acaso a pesquisa deles é muito diferente???
    Um pesquisador com mestrado, na EMBRAPA, ganha tanto quanto um doutor na universidade.
    Então por favor, Senhores, parem que "sentar em cima do rabo" de vocês e ficar criticando o outros.
    E me desculpe, mas nem todos os professores universitários são doutores (isso é ridículo).

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  3. Se é assim tão bom, por que você saiu então?

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